Editorial

A Hora e a Vez da Medicina Regenerativa e da Farmacogenômica

O ano de 2007 trouxe muitas esperanças com relação ao aparecimento de novas drogas e particularmente pelo desenvolvimento das pesquisas experimentais com células-tronco. No campo das doenças cárdio-metabólicas havia pelo menos em quatro novas drogas em que se depositavam fortes expectativas: a família das glitazonas, o rimonabanto, o grupo das incretinas e a insulina inalada.

O ano de 2008, mostrou que, exceto as incretinas, as demais traziam mais problemas do que benefícios. Algumas foram retiradas do mercado - caso do rimonabanto - outras passaram a usar, por exigência do FDA, tarjas pretas nas suas bulas com advertências que iam desde a possibilidade de fraturas até importantes problemas mentais.
Um dos casos mais emblemáticos foi o da insulina inalada. Lançada com grande pompa e festas no mundo inteiro, foi retirada do mercado meses após o lançamento

O pretendemos analisar neste artigo são as novas linhas de medicamentos que começam a surgir.

No tratamento doenças crônicas e do câncer, em particular, novas drogas sempre serão bem-vindas e é possível que após estes fracasso caminhemos para àquelas voltadas à regeneração das células e/ou tecidos. . A regeneração deve ser entendida como diferente do tratamento com células-tronco. "O conceito de bioengenharia inclui as substituições de estruturas, tecidos ou células, visando o reparo de tecidos lesados ou degenerados, por substitutos funcionalmente e estruturalmente equivalentes. A medicina regenerativa procura controlar e ampliar a capacidade natural de regeneração."

A medicina regenerativa vai além do uso das células-tronco, que sem dúvidas é necessária, mas não suficiente. O que estamos assistindo é que existe muito trabalho ainda a ser feito. A quantidade e a qualidade dos trabalhos que surgem diariamente mostram que ainda estamos muito longe de atingirmos os objetivos, que são basicamente a reconstituição de tecidos com as mesmas funcionalidades originais, ou seja, antes dos danos que sofreram.

Entre os estudos em andamento estão:

MMF + Daclizumab: é um estudo ainda em follow-up que é talvez o menos atrativo porque envolve imunossupressão crônica do MMF, tomado 2 vezes ao dia. O Daclizumab é EV, aplicado 2 vezes com intervalo de 1 mês. O MMF também é de aquisição muito difícil no Brasil e é muito caro.

Rituximab (anti-CD20): é um estudo já terminado ainda não publicado em que se acredita que a droga modula a ação pró-inflamatória do linfócito B. O rituximad é infundido semanalmente no primeiro mês e espera-se que o efeito imunomodulador seja persistente.

O estudo Abate é um estudo conduzido pelo Kevan Herold da UNY em união com a indústria farmacêutica. Ele tem 2 estudos menores previamente publicados com a droga e este Abate é um multicêntrico, randomizado, placebo-controlado (este último com cotrovérsias). Ainda está randomizando pacientes e há centros no Brasil randomizando. A droga é infundida EV e tem a capacidade de mudar duradouramente a relação de linfócito T reg e citotóxico. Os estudos anteriores mostraram uma redução do peptídeo-C ao longo do tempo (1 ano) e apesar de haver redução da dose de insulina com o tempo, nenhum paciente ficou livre de insulina.

IL-2 + sirulimus (ou rapamicina): está em fase de recrutamento e o IL-2 é administrado SC 3 vezes por semana no primeiro mês somente. O Sirulimus é administrado VO continuamente. Tem o inconveniente da imunossupressão crônica. O problema deste estudo é que podem ser incluídos pacientes com 3 meses há 4 anos de diagnóstico (todos os demais incluem no máximo até 3 meses de diagnóstico) e não creio que isto seja adequado sem haver algum esquema para "regenerar" células beta.

Abatacept: é um estudo promissor com aplicações endovenosas mensais (inicialmente a aplicação é mais frequente). Ainda está recrutando pacientes.

É importante lembrar que as incretinas tem sido mencionadas como capazes de fazer a regeneração das células beta, mas Marcos Tambascia, professor da Unicamp diz " acho que seria conveniente deixar claro que a regeneração das células betas com incretinas ainda só é demonstrada em modelos animais. Nos seres humanos fica apenas a possibilidade teórica. A terapia baseada em incretinas (tanto os análogos resistentes a DPP4 como os inibidores da DPP4) tem um efeito redutor da glicemia modesto, mas com a grande vantagem de serem neutros ao ganho de peso - ou até diminuir com os análogos - e não induzir reações hipoglicêmicas, pois sua ação secretagoga de insulina é dependente da glicose - o que é bastante interessante."

As céluças tronco - situação atual

Os cientistas mais otimistas, acreditam que dentro de 2 a 5 anos teremos alguns resultados com as células-tronco. Uma das grandes dificuldades é a variabilidades destas células. Um trabalho de Doug Melton mostrou que algumas linhagens de células-tronco são ótimas para a produção, por exemplo, do mesoderma, mas não são boas para produzirem endoderma.

Os trabalhos do norte-americano James Thompson, da Universidade de Wisconsin-Madison, e do japonês Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto e realizados em 2007, pareciam ter removido todos os obstáculos religiosos, com a manipulação do embrião e o respeito à vida. Estas células conhecidas como IPS são produzidas a partir de células da pela exposta a um retro-virus, pois poderiam causar mutações genéticas e deflagrar tumores no organismo, no entanto, é provável que uma nova descoberta científica venha encerrar essa polêmica e impulsionar a medicina regenerativa.

Dois pesquisadores, O JAPONÊS Keisuge Kaji, da Universidade de Edinburgo, e o canadense Andras Nagy, do Hospital Monte Sinai em Toronto, Canadá fabricaram células pluri-potentes sem a necessidade de usar métodos virias para os fatores de reprogramação celular. A pesquisa foi publica no último número da revista Nature na semana passada.

Os cientistas usaram uma sequência de DNA chamada de piggyBAC, presente na mariposa e é capaz de se mover ao longo da célula. Depois, combinaram esta técnica com um vetor único para entregar todos os fatores de reprogramação em um único lugar do cromossomo, sem "contaminá-lo com vírus. Kaji e os seus colegas conseguiram injetar em camundongos um pacote de quatro genes reprogramadores, e depois removê-lo, sem utilizar vírus ou alterar o genoma das células. Kaji declarou: "é um passo adiante no uso prático de células reprogramadoras, é um sistema bastante prático de celas reprogramadas em medicina de levar os genes "empacotados" para dentro das células e depois retirar os genes transportadores."

Além disso, as equipes de pesquisadores deverão mudar o atual paradigma, fazendo que biólogos, médicos e físicos trabalhem juntos, neste novo campo da medicina regenerativa.

Referências:
  • Chien,K,R. Towards human models of human disease. Nature 453,302-305 (2008)
  • Osafune,K. et al Marked differences in differentiation propensity among human embryonic stem cell lines. Nature Biotecnol 26,313-315 (2008)

 

Diabetes mellitus: presente e futuro de uma Epidemia anunciada

(publicado em 2008, no lançamento do E-book)

Todo bom e tradicional livro sobre diabetes começa com a história da doença. Aprendemos que se trata de uma patologia antiga, que Banting & Best foram os descobridores da insulina e muitas outras coisas mais. Entretanto, este não é um livro tradicional. Muito pelo contrário, o livro eletrônico representa uma significativa evolução editorial, não apenas por seu conteúdo atual mas, principalmente, por permitir uma atualização contínua de seus conteúdos.

Os conhecimentos sobre diabetes experimentaram uma dramática evolução nos últimos anos, não só quanto aos mecanismos patológicos das doenças como em relação às novas opções terapêuticas, todas elas desenvolvidas com base no próprio mecanismo fisiopatológico do diabetes. Esta fantástica evolução nos conhecimentos sobre a doença nos trouxe boas e más notícias.

Comecemos pelas más notícias. Embora de caráter controlável, o diabetes vem despontando como uma epidemia de graves proporções. Sua prevalência está aumentando assustadoramente, como resultado do envelhecimento da população e das alterações negativas no estilo de vida. Além disso, a doença está se manifestando em idades cada vez mais precocemente. Não existe um gen único que seja o causador solitário da doença, frustrando o trabalho de muitos pesquisadores. Os geneticistas agora acreditam que um grupo de genes disseminados pelo genoma, em combinações variáveis e numa interação complexa com fatores adquiridos, levam ao aparecimento do diabetes e de suas complicações, cujo impacto varia de indivíduo para indivíduo. Finalmente desapareceu a distinção clássica, entre diabetes do tipo 1 ou 2 e já reconhecemos o “tipo 1.5”, ou seja, o diabetes autoimune latente do adulto; passamos a diagnosticar muitos casos de diabetes tipo 2 em adolescentes e casos de diabetes do tipo MODY, onde existe uma alteração genética. Deparamos, ainda, com várias formas de intolerância à glicose, como as encontradas na gestação, ovário policístico e esteato-hepatite.

Entretanto, a evolução do conhecimento também trouxe boas notícias. Por exemplo, agora compreendemos todos os aspectos fisiopatológicos das hiperglicemias e somos capazes de conhecer os níveis de glicemia em qualquer momento, com tecnologias portáteis de ponta. Compreendemos, também, as bases celulares da resistência à insulina que prediz, precede e caracteriza a intolerância à glicose. Temos conhecimentos profundos do papel do pâncreas endócrino no diabetes e, também, do seu papel na perda progressiva ou abrupta da função das células beta. Reconhecemos, cada vez mais, os efeitos dos hormônios gastrintestinais no controle glicêmico, bem como os efeitos nocivos da obesidade e do sobrepeso no controle do diabetes. Estão avançados os estudos sobre os mecanismos de hipertrofia das ilhotas (neogênese vs replicação).

Estes novos conhecimentos resultaram em intensa atividade da indústria farmacêutica. Por mais de meio século, os únicos tratamentos disponíveis para os estados hiperglicêmicos foram as sulfas, a insulina e a metformina. Agora, as novas drogas procuram atuar nos múltiplos mecanismos fisiopatológicos do metabolismo glicídico. Novas e excitantes estratégias estão sendo estudadas e entre elas estão: a ativação da glicoquinase, o bloqueio da ação do glucagon, o impedimento da reabsorção renal de glicose, o retardamento do esvaziamento gástrico, a insulina inalada e a oral. A possibilidade de normalização da glicemia durante 24 horas não parece longe e poderá ser alcançado em breve, um fato comparável ao conseguido com as estatinas, em relação ao colesterol.

Este livro eletrônico tem como proposta básica a abordagem de todos esses excitantes novos caminhos do diabetes, através de uma linguagem descomplicada, prática e objetiva. É um caminho contemporâneo e que, esperamos, seja sempre atual, graças à contribuição de todos os estudiosos brasileiros.

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