Capítulo 10
Dr. David Salomão Lewi
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Introdução
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Classicamente considera-se o paciente diabético mais propenso ao desenvolvimento de infecções, sejam elas bacterianas, fúngicas ou virais. Porém, contrariamente ao senso comum, a associação de diabetes com maior susceptibilidade às infecções em geral não é evidenciada por muitos estudos populacionais (1). Recentemente, em estudo prospectivo com acompanhamento por 12 meses de pacientes diabéticos tipo1 e 2 comparados com 18 mil controles hipertensos, pode-se observar um risco 30 a 40% maior nos diabéticos para o desenvolvimento de infecções do trato respiratório inferior, trato urinário, pele e mucosas. Nos pacientes diabéticos as infecções do trato urinário inferior foram até 100% mais freqüentes quando comparados com os hipertensos não diabéticos (2). Sabe-se também que algumas infecções são mais freqüentes em pacientes diabéticos e outras são exclusivas destes, e existem evidentes alterações imunitárias em pacientes com diabetes (tabela 1), como descreveremos a seguir.
Fisiopatogenia – diabetes e imunidade celular e humoral
Várias alterações imunitárias vêm sendo descritas no diabetes, sendo a imunidade celular mais comprometida, com alterações nos polimorfonuclares, monócitos e linfócitos. Nos polimorfonucleares há alterações na aderência, quimiotaxia, fagocitose, queima oxidativa e capacidade bactericida intracelular, havendo estudos que demonstram relação inversa entre este ultimo mecanismo imunitário e os níveis de hemoglobina glicada (3).
Não existem evidências de grandes alterações na resposta imunitária humoral no diabetes, ocorrendo níveis normais de imunoglobulinas e resposta imunitária humoral aos antígenos vacinais semelhante à de indivíduos não diabéticos.
Infecções peculiares
Mucormicose rinocerebral – Cinqüenta a 75% dos casos de mucormicose rinocerebral ocorrem em diabéticos, sendo a cetoacidose o maior fator predisponente. Como agentes infecciosos destacam-se as espécies Rhizopus, Absidia e Mucor, da família Mucoracea. A partir da inalação e penetração do fungo nos seios paranasais ocorre a germinação, com invasão do palato, seio esfenóide e seio cavernoso, podendo envolver a órbita e invadir o cérebro. O quadro clínico é caracterizado por febre, cefaléia, dor e edema facial, ocular e periorbital. Cerca de 40% dos pacientes apresentam lesão necrótica na mucosa nasal ou palato, devido à isquemia tecidual, por invasão vascular (figura 1) (4, 5, 6). Na evolução pode ocorrer ptose palpebral, oftalmoplegia e perda visual, por envolvimento orbitário. No comprometimento da artéria carótida pode ocorrer extenso acidente vascular cerebral isquêmico. A pesquisa direta em fluidos biológicos suspeitos, em secreções nasais ou em material coletado no palato revela, com hidróxido de potássio a 10% (KOH), hifas hialinas, largas, não septadas, ramificadas com ângulo de 90º (figura 2). O tratamento consiste em extenso desbridamento e altas doses de anfotericina lipossomal (7).
Fig. 01 - Clique na imagem para ampliar
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Otite externa maligna – Infecção associada ao diabetes em cerca de 90% dos casos pode evoluir para comprometimento cerebral quando não tratada (8). O risco é maior em pacientes que praticam natação, nos que usam aparelhos auditivos e nos mal controlados. Pseudomonas aeroginosa é o principal agente envolvido. O quadro clínico é caracterizado por dor, presença de tecido de granulação e evidência clínica e radiológica de erosão do conduto auditivo. O diagnóstico é feito através da cultura da secreção do conduto auditivo, com comprovação do agente infeccioso. Pode ocorrer comprometimento do nervo facial por infiltração temporal, comprometimento da mastóide e lesão de nervos craniais do IX ao XII pares, quando a extensão do processo atinge a base do crânio. O tratamento envolve debridamento cirúrgico extenso e uso de antibioticoterapia com cefalosporinas antipseudomonas ou beta lactâmicos por 4 a 6 semanas. A mortalidade atinge 30% dos pacientes quando há comprometimento intracranial (8).
Colecistite enfisematosa – Rara infecção do trato biliar, associa-se ao diabetes em 30 - 35% dos casos. Predomina em homens, com crepitação à palpação abdominal e demonstração de gás na radiografia simples do abdome ou na tomografia. Em cerca de 50% dos pacientes a afecção ocorre sem a presença de litíase biliar, podendo ocorrer perfuração ou gangrena da vesícula. O tratamento é cirúrgico, com colecistectomia e terapia antimicrobiana complementar de largo espectro (1,9).
Infecções do trato urinário – Mulheres diabéticas podem ter de 2 a 3 vezes mais bacteriúria do que pacientes não diabéticas. Apesar de controvérsias quanto ao tratamento da bacteriúria assintomática, o risco de infecção do trato urinário superior, como pielonefrite, chega a ser de 4 a 5 vezes maior em pacientes diabéticas, sendo muito freqüente o comprometimento bilateral. A infecção geralmente é ascendente, destacando-se como patógenos Escherichia coli, Enterobacter, Proteus e, Klebsiella. Preconiza-se antibioticoterapia prolongada por 10 a 14 dias, havendo risco de complicações como abscesso renal e perirrenal, pielonefrite enfisematosa e necrose papilar (10).
A pielonefrite enfisematosa, em particular, é uma complicação praticamente vista somente em diabéticos (90% dos casos). Resulta de uma pielonefrite multifocal aguda, sendo a Escherichia coli o agente mais comum. Outros bacilos Gram negativos são descritos, como Enterobacter aerogenes, Klebsiella sp. e Proteus sp. Ocasionalmente Streptococcus sp. e Candida podem ser os agentes etiológicos. As mulheres têm, pelo menos, o dobro da probabilidade de desenvolver a manifestação, sendo a obstrução do trato urinário por cálculos um fator predisponente. Além do quadro de dor, febre e toxemia, observa-se massa palpável no flanco, podendo ser demonstrado gás na loja renal, mesmo à radiografia simples do abdome. A tomografia leva ao diagnóstico de certeza, contribuindo para a localização do processo no parênquima renal, no espaço perirenal ou no sistema coletor renal (pielite enfisematosa). Além da antibioticoterapia, é necessária a nefrectomia quando há comprometimento renal ou perinefrético. Nos casos de pielite, a resolução da obstrução através de cateterismo pode ser suficiente para melhora do prognóstico (1, 9,10, 11).
Gangrena de Fournier – É outra afecção de ocorrência predominante em pacientes diabéticos (até 60% dos casos) (12). Os pacientes desenvolvem uma grave forma de celulite, com fasceíte necrotizante envolvendo os músculos adjacentes, principalmente na região perineal. A etiologia é polimicrobiana, havendo isolamento de bacilos Gram negativos, estreptococos aeróbicos e anaeróbicos, Clostridium e Bacteroides. Dor, edema e necrose perineal são característicos da evolução. A infecção leva a rápida deterioração clínica, impondo-se extenso desbridamento – algumas vezes com orquiectomia – antibioticoterapia de amplo espectro e oxigenoterapia hiperbárica. Apesar do tratamento apropriado, a mortalidade chega a 30 a 40% dos casos (13, 14).
Fig. 03 - Clique na imagem para ampliar
Infecção no Pé Neuro-isquêmico (figura 4) – Problema bastante comum no diabetes, pois 25% em média dos pacientes diabéticos têm neuropatia, e cerca de 35% a 40% dos pacientes diabéticos com úlceras nos pés sofrerão amputação num período de 3 anos. Considera-se ainda que mais de 50% das amputações de extremidades, não decorrentes de trauma, são relacionadas ao diabetes. Inúmeros são os fatores predisponentes, destacando-se os traumas de sapatos, com formação de úlceras e abrasões não percebidas devido à neuropatia, além da presença de onicomicoses e dermatomicoses.
As infecções podem ser classificadas em:
O comprometimento ósseo, denotando osteomielite, pode ser clinicamente visível, podendo-se também eventualmente palpar o osso comprometido ou tocá-lo com um instrumento pontiagudo, através da úlcera. Já o envolvimento ósseo evidenciado em radiografias simples denota uma infecção com mais de 15 a 20 dias de evolução, e com perda óssea de mais de 50%. A cintilografia com leucócitos marcados e a ressonância magnética, por sua vez, são métodos de imagem que propiciam um diagnóstico mais precoce (15).
O tratamento das infecções moderadas resume-se, na maior parte das vezes, em antibioticoterapia com duração média de 2 semanas. Nas infecções graves é fundamental o desbridamento, realizando-se a limpeza dos seqüestros ósseos nos casos de osteomielite. A cobertura antimicrobiana empírica deve incluir agentes ativos contra S. aureus, Pseudomona, enterococcos e anaeróbios (9, 15).
Fig. 04 - Clique na imagem para ampliar
Profilaxia
Apesar de ser difícil prevenir a grande parte das infecções nos pacientes diabéticos, vários estudos indicam que um melhor controle glicêmico diminui seu risco e que, uma vez presentes, elas têm melhor prognóstico no paciente com bons níveis de hemoglobina glicada 16. Dada a alta freqüência de infecções nas extremidades, é fundamental a inspeção regular das mesmas.
Preconiza-se, ainda, a imunização ativa no paciente diabético, destacando-se as vacinas antigripal anual e anti-pneumocócica a cada 5 anos.
Referências bibliográficas
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