Capítulo 6
Dr. Luciano Ricardo Giacaglia
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Introdução
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A Síndrome Metabólica (SM) representa uma constelação de distúrbios metabólicos que, em conjunto, determinam aumento do risco de desenvolver diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e doenças cardiovasculares (DCV), como doença coronariana, acidente vascular cerebral e insuficiência arterial periférica. Dados do III National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) apontam para uma prevalência de SM ao redor de 25% da população adulta norte-americana, não existindo diferença entre os sexos. Observa-se uma progressão linear da prevalência com a idade, fazendo com que mais de 40% da população acima dos 60 anos seja portadora de SM.
Atualmente entende-se que a resistência insulínica (RI) é o pilar fisiopatológico da SM. O diagnóstico padrão-ouro da RI se baseia no clampe euglicêmico hiperinsulinêmico. Na prática ambulatorial utilizamos o índice HOMA-IR ((glicemia jejum x insulinemia jejum) ÷ 405), de menor custo e menor dificuldade técnica, com boa correlação com o clampe. Considera-se como valor normal um HOMA-IR de até 2,8. Ainda assim, pela limitação desta mensuração em vários meios, diversas organizações de saúde buscaram estabelecer parâmetros clínicos capazes de identificar fenótipos sugestivos da presença de RI. A definição da International Diabetes Federation (IDF) inclui a presença de obesidade abdominal, com circunferência abdominal superior a 94cm em homens (90cm em asiáticos) e 80cm em mulheres, e ao menos duas das seguintes alterações: distúrbio do metabolismo glicêmico, que inclui a hiperglicemia de jejum, a intolerância a glicose ou o DM; a hipertensão arterial sistêmica (HAS), quando maior ou igual a 130/85mmHg; hipertrigliceridemia superior a 150mg/dl; e HDL-c inferior a 40mg/dl para o homem e 50mg/dl para a mulher. A mensagem principal é que o clínico diante do aumento de circunferência abdominal deve considerar a possibilidade outros distúrbios metabólicos coexistentes.
A circunferência abdominal é medida na linha média entre a borda superior da crista ilíaca e a borda inferior da última costela que, na maioria, coincide com a cicatriz umbilical. Os métodos de imagem como ultrasonografia, tomografia e ressonância magnética embora mais precisos na quantificação específica da gordura visceral, apresentam alto custo, especialmente no caso de rastreamento populacional.
Obesidade Visceral e síndrome metabólica
A obesidade visceral é um dos aspectos mais relevantes na determinação da RI. O tecido adiposo, mais que um simples depósito de lipides, é hoje reconhecido como um tecido endócrino ativo, capaz de produzir diversos hormônios (angiotensina, cortisol, leptina, resistina, estrona,adiponectina) e adipocinas (TNF-alfa,IL-6, MCP-1,PAI-1), além de expressar receptores que respondem a sinais aferentes de diversos sistemas reguladores do metabolismo.
A gordura visceral responde por somente 15% da gordura corporal total em indivíduos obesos, comparado a 10% em magros. Porém, enquanto o adipócito visceral expressa hormônios de ação anti-insulínica e adipocinas pró-inflamatórias, o adipócito subcutâneo expressa hormônios pró-insulínicos, anti-aterogênicos e anti-inflamatórios, como a adiponectina.
A gordura visceral, com maior expressão de receptores catecolaminérgicos e menor expressão de receptores insulínicos, é mais ativa em termos de turn-over lipídico, com maior liberação de ácidos graxos livres (AGL) na circulação. Muito deste aporte de AGL acaba se depositando ectopicamente em órgãos como o fígado, músculo esquelético e pâncreas.
O aumento da oferta de AGL para o fígado estimula a produção de partículas VLDL-c, ricas em triglicérides, e aumenta a depuração plasmática de partículas HDL-c, com redução de seus níveis circulantes. O fígado se torna gorduroso e resistente à insulina, o que acaba estimulando a gliconeogenese e a glicogenólise, representado pelo aumento da produção hepática de glicose. Os casos extremos de depósito gorduroso, com ativação de citoquinas inflamatórias, evoluem para esteatohepatite e eventualmente cirrose, podendo além da clássica elevação enzimática apresentar dor a palpação de hipocôndrio direito.
No músculo esquelético, os AGL levam ao acúmulo intracelular de diacilglicerol e ativação da enzima PKC, que fosforila um resíduo alternativo do substrato do receptor de insulina (IRS-1), inibindo a cascata de resposta intracelular da insulina. No pâncreas, a deposição ectópica de gordura compromete a função das células beta, acelerando o processo de apoptose celular e aumentando o risco futuro de DM.
Do ponto de vista prático, é importante salientar que reduções modestas da adiposidade visceral, mesmo não acompanhadas de redução do IMC, o que é comum para quem inicia a atividade física, podem ter um impacto positivo no perfil cardiometabólico, fazendo com que a circunferência abdominal seja uma das medidas antropométricas mais confiáveis no controle terapêutico do paciente.
Causas da Resistência Insulínica e Síndrome Metabólica
Diversas mutações monogênicas foram descritas como causadoras de RI e SM, interferindo nas diferentes etapas da ação insulínica, na viabilidade das ilhotas pancreáticas, na proliferação, e na diferenciação adipocitária, embora elas correspondam a uma mínima porcentagem dos casos.
A expressão fenotípica da SM deriva, na maior parte das vezes, da inter-relação entre diversos genes (distúrbio poligênico). Já foram descritos vários padrões alélicos polimórficos que modulam os mais diversos eixos do controle metabólico. Recentemente, a persistência da gordura marrom vem sendo implicada na proteção contra a obesidade e SM, por ser rica em mitocôndrias e proteínas desacopladoras (UCPs) que determinam escapes de prótons, com menor formação de ATP e menor risco de ganho ponderal.
Apesar da clara participação genética/étnica na SM, com interação poligênica e elevada prevalência familiar, fica evidente que a progressão epidêmica da SM nas últimas décadas só pode ser explicada pela interferência de agentes externos, decorrentes das mudanças ambientais e do estilo de vida moderno.
Os avanços tecnológicos atuais reduziram em muito a nossa atividade espontânea. Em termos da ação insulínica, a musculatura esquelética aumenta o deslocamento dos transportadores de glicose GLUT4 para a membrana celular, estimulando a captação celular de glicose, além de ativar o fator nuclear da classe PPAR, que modula a resposta celular à insulina. Atualmente, recomenda-se como modelo de atividade terapêutica a atividade aeróbia por 40 a 60 minutos, ao menos 5 dias na semana, que pode ser complementada com atividade anaeróbia por 30 minutos, ao menos 2 dias na semana.
Ao caminhar em espaços abertos propiciamos a exposição aos raios ultravioletas, responsáveis pela síntese de vitamina D. A vitamina D, além de seu efeito no metabolismo ósseo, estimula a síntese de adiponectina, com ações pró-insulínicas. Naqueles com restrição ao sol pode-se recorrer à reposição oral ou parenteral da vitamina D.
A dieta contemporânea apresentou drástica mudança em relação à dieta de nossos antepassados, para a qual nossa genética foi adaptada. O aumento no consumo atual de carboidratos simples promove uma absorção acelerada, com aumento na carga glicêmica e hiperresposta beta-pancreática, levando a um estado de hiperinsulinemia crônica e falência precoce do órgão. Aliada à baixa ingesta de fibras vegetais, ocorre redução da chegada de nutrientes nas porções finais do intestino, inibindo a secreção de incretinas, como o GLP-1.
Os vegetais, frutas e grãos integrais, alem das fibras, são fonte de importantes micronutrientes, como vitaminas, sais minerais e anti-oxidantes, que podem exercer papel preventivo na SM. Eles ajudam a regularizar a flora intestinal, favorecendo cepas com menor expressão de endotoxinas e menor geração de AGL voláteis, diretamente ligados à SM.
As gorduras saturadas e as gorduras “trans” podem desencadear diversos distúrbios metabólicos, alem de estimular o eixo endocanabinóide, que ativa as áreas de prazer hipotalâmico, intensificando a procura por alimentos gordurosos, e estimula a expansão do tecido adipocitário visceral. Alem de seu elevado conteúdo gorduroso, o excesso de proteínas de origem animal é capaz de estimular as vias celulares mTOR e serina-6-quinase, que interferem na resposta insulínica e estão associadas à proliferação neoplásica. Inclusive, esta via é estimulada pela oferta excessiva de AGL e açúcares, razão pela qual diversos modelos animais demonstram aumento da expectativa de vida frente a restrições do conteúdo calórico total.
A estrutura social moderna, extremamente produtiva, com a ajuda da luz artificial, sacrificou horas de sono e interferiu em seu relógio biológico. Nas últimas décadas a média de 7,5 horas de sono ao dia diminuiu para próximo de 6 horas. O cansaço gerado pela falta de repouso adequado desestimula a atividade física, reduz os níveis de leptina e aumenta os níveis de grelina, promovendo assim um aumento na ingesta alimentar e uma redução do gasto energético basal. Esta situação é evidente nos trabalhadores de turno noturno ou turno variável. A associação com hipo/apnéia pode reduzir a oxigenação sanguínea, comprometendo a freqüência e qualidade do sono REM. Portanto, estes distúrbios devem ser pesquisados e o paciente orientado quanto adequação do sono e a métodos de auxílio respiratório. Descobriu-se também uma forte correlação entre RI e redução do tônus dopaminérgico no hipotálamo, na região regulatória do relógio biológico, abrindo assim novo campo de abordagem terapêutica.
O estresse cotidiano ativa o eixo hipotálamo-hipófise-suprarenal, com aumento dos níveis circulantes de cortisol e promoção de RI. Em contrapartida, inúmeros trabalhos demonstram o papel protetor da meditação e de diversas técnicas de relaxamento na prevenção da SM.
Finalmente, subprodutos de produtos industriais aos quais a humanidade está exposta há décadas, como o ftalato e o bisfenol-A presentes em polimeros, são capazes de desregular a resposta insulínica. O problema é que as conseqüências podem se perpetuar por várias gerações, pelo efeito epigenético na RI, já bem estudado em fetos submetidos a estresse na vida uterinana.
Marcadores não-clássicos da Síndrome Metabólica e doenças associadas
Nos últimos anos, o espectro de distúrbios metabólicos associados à SM vem se ampliando, alertando o clínico a outros marcadores não-clássicos como a hiperuricemia; a microalbuminúria, um sinal indireto de disfunção endotelial renal; a elevação de enzimas hepáticas e de marcadores de inflamação hepática, como a gamaGT e a ferritina; o aumento na expressão de partículas lipídicas ricas em apolipoproteina B (ApoB), em oposição a apolipoproteina A (ApoA); a história pregressa de eclampsia e diabetes gestacional; a síndrome dos ovários policísticos na mulher; e mais recentemente, os baixos níveis de testosterona e de globulinas carreadoras de hormônios esteróides (SHBG) no homem.
Diversas doenças vêm sendo vinculadas, ao menos em parte, à resistência insulínica, como a doença de Alzheimer; as neoplasias de cólon, mama e próstata; as síndromes vestíbulo-cocleares; neuropatias periféricas; a depressão; as doenças inflamatórias crônicas; a gota úrica e a litíase renal; entre outras. Na prática clínica, fica implícita a necessidade de avaliar os riscos cardiometabólicos em portadores destas patologias associadas.
Síndrome Metabólica, Inflamação e Risco Cardiovascular
Apesar dos inúmeros avanços na prevenção e tratamento, a DCV ainda representa a principal causa de mortalidade em nosso meio. A disfunção endotelial (DE) constitui o elo entre SM e DCV. Inúmeros fatores da SM podem contribuir para o risco de DE, incluindo o perfil lipídico pró-aterogênico, com partículas pequenas e densas tanto de LDL-c como de HDL-c, esta ultima com níveis totais reduzidos; elevação de triglicérides, AGL e VLDL, alem de partículas ricas em ApoB; o aumento do inibidor do ativador do plasminogênio 1 (PAI-1), de ação pró-trombótica; o efeito oxidativo e de glicação protéica da hiperglicemia; e a hipertensão arterial sistêmica (HAS).
A relação entre RI e HAS já está bem estabelecida. Os adipócitos viscerais sintetizam angiotensina II que, de ação vasoconstritora direta e promotora de reabsorção tubular de sódio. A própria RI favorece a vasoconstricção arterial, uma vez que a insulina é um potente estimulante da oxido nítrico sintase, enzima que produz o óxido nítrico endotelial, e também estimula a reabsorção tubular renal de sódio, atividade esta que não se reduz na RI. Através de receptores híbridos a insulina promove hipertrofia da camada muscular média dos vasos, aumentando a resistência arterial periférica, exacerbada pela hiperatividade do sistema autônomo simpático.
O acúmulo de gordura visceral promove a secreção de adipocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-alfa) ao mesmo tempo em que suprime o hormônio protetor adiponectina, favorecendo a instalação de processo inflamatório crônico. Nesta circunstância ocorre um acúmulo de macrófagos no local, atraídos pela proteína de atração monocitária (MCP-1), produzida pelos adipócitos. Os macrófagos ativados sintetizam ainda mais citoquinas e acabam perpetuando o processo inflamatório. As células endoteliais também produzem MCP-1 quando expostas às adipocinas, atraindo macrófagos para o espaço subendotelial e causando dano oxidativo local, de maneira semelhante ao observado na aterosclerose. As partículas pequenas e densas de LDL-c são mais propensas a ultrapassar a parede endotelial, sendo capturadas na íntima pelos macrófagos, acentuando a inflamação.
Além disso, a SM também está relacionada à disfunção diastólica, hipertrofia do ventrículo esquerdo e a um aumento do risco arritmogênico, provavelmente por efeito de lipotoxicidade induzida pelos AGL. Observa-se aumento do intervalo QT ao eletrocardiograma, com menor refratariedade miocárdica e maior instabilidade elétrica, aumentando o risco de morte súbita.
Síndrome Metabólica e o ciclo vicioso da Resistência Insulínica
Um dos aspectos marcantes da SM é sua capacidade de autoperpetuação. Se por um lado o excesso de AGL promove RI, por outro a RI intensifica o processo de lipólise periférica, com liberação de mais AGL, além de levar a um estado catabólico muscular, que resulta em sarcopenia e piora da RI. O excesso de AGL nas mitocôndrias induz à formação de radicias superóxidos, que ativam a via promotora NFkappa-B. Esta via inibe a ação intracelular da insulina e está envolvida na produção de mais citocinas inflamatórias, que ativam ainda o sistema. Doenças inflamatórias crônicas, como lúpus, artrite reumatóide, hepatites crônicas e a SIDA, estão associadas a diferentes graus de RI. Os AGL e as endotoxinas bacterianas ativam os receptores “toll-like” (TLR) que também ativa a via NFkappa-B. Embora o uso de salicilatos esteja sendo avaliado no tratamento da RI, devemos lembrar que os vegetais são rica fonte natural de ácido salicílico.
A RI reduz a excreção renal de ácido úrico, elevando a sua concentração plasmática, e este é capaz de agravar a RI e induzir disfunção endotelial, uma vez que modelos animais não hiperuricêmicos, tratados com alopurinol apresentam melhora do perfil cardiometabólico.
A RI nos núcleos hipotalâmicos que regulam a saciedade e o gasto energético basal reduz a taxa metabólica basal e aumento a ingesta alimentar. No sistema límbico, pela interação com neurônios dopaminérgicos e serotoninérgicos, a RI pode levar a transtornos depressivos, dificultando a prática de atividade física e favorecendo alimentação compulsiva.
A gordura visceral, por expressar a enzima 11beta-HSD, aumenta a síntese local de cortisol, intensificando a RI e o acúmulo de gordura visceral. A angiotensina II determina alterações morfológicas e funcionais nas mitocôndrias, propiciando o acúmulo de AGL e a geração de radicais superóxidos. Mutações mitocondriais e o acúmulo de danos celulares oxidativos podem ser um dos vínculos da RI com o envelhecimento. Tanto a renovação da mitocôndria como de outras organelas celulares pode ser promovida pela enzima AMPK, estimulada pela atividade física e pelas sirtuínas, que se elevam frente à restrição calórica ou por elementos naturais, como o resveratrol.
Referências bibliográficas
Capítulo 6
{pub}Introdução
Não restam dúvidas na comunidade científica e na experiência clínica que a resistência à insulina tem papel central em uma série de anormalidades que aumentam o risco cardiovascular. Uma corrente de investigadores acredita que é o acúmulo de gordura visceral o mais relevante desencadeador de alterações metabólicas, inflamatórias e hemodinâmicas que levam o indivíduo a desenvolver o conjunto de anormalidades, consagrado como “síndrome metabólica”.{/pub}
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{reg}Introdução
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Não restam dúvidas na comunidade científica e na experiência clínica que a resistência à insulina tem papel central em uma série de anormalidades que aumentam o risco cardiovascular. Uma corrente de investigadores acredita que é o acúmulo de gordura visceral o mais relevante desencadeador de alterações metabólicas, inflamatórias e hemodinâmicas que levam o indivíduo a desenvolver o conjunto de anormalidades, consagrado como “síndrome metabólica”.
Distúrbios da homeostase glicêmica fazem parte desta síndrome que já recebeu várias denominações tais como:
A importância de se fazer este diagnóstico baseia-se no fato de que este se associa a elevado risco cardiometabólico.
A doença cardiovascular (DCV) é a principal complicação e a maior causa de morte precoce em indivíduos diabéticos, que têm o risco de eventos cardíacos ou cerebrais aumentado em 2 a 4 vezes.. Essa relação foi estabelecida em vários estudos epidemiológicos:
Apesar destas consistentes evidências, recente levantamento da ADA que mostrou que 65% dos indivíduos diabéticos não consideram a DCV como uma complicação séria do DM.
Fig. 01 - Clique na imagem para ampliar
O que é risco cardiometabólico
O termo risco cardiometabólico diz respeito a um conjunto de fatores que predispõe indivíduos a desenvolver DCV e DM. Este conjunto inclui fatores de risco passíveis de modificação com manobras não-farmacológicas e farmacológicas, outros não-modificáveis (genéticos, idade, sexo), além de “marcadores”, capazes de identificar indivíduos com maior risco de apresentar infarto do miocárdio, doença cerebrovascular e doença arterial periférica. Dentre os fatores de risco modificáveis estão o tabagismo, inatividade física, certos hábitos dietéticos, adiposidade corporal excessiva, níveis presóricos e de colesterol elevados que representam os alvos para intervenções preventivas ou terapêuticas.
Apesar dos avanços no conhecimento sobre a fisiopatologia da associação de fatores de risco e na terapêutica, estes continuam a ser sub-tratados na prática clínica. A conseqüência disso é que as DCV continuam sendo a principal causa de morte em muitos países.
Segundo o National Health and Nutrition Examination Survey - NHANES, realizado entre 1999-2002, 972.000 americanos morreram de doenças relacionadas ao aparelho circulatório; em 2002, 224.000 mortes foram atribuídas ao DM tipo 2. O mesmo estudo verificou aumento das prevalências de obesidade (IMC > 30 kg/m2) e DM, que estão intimamente relacionadas às mortes de origem cardiovascular. Entre 1976 e 2002, o número de americanos obesos dobrou, passando de 15% para 30% (4).
Acredita-se que a obesidade - especialmente abdominal - seja o mecanismo primário, tanto para desenvolvimento de DM, como para as DCV, uma vez que ambos têm fatores comuns como à resistência à insulina, hipertensão arterial e dislipidemia. A observação da concomitância destes fatores de risco é que levou à conceituação e definição da síndrome metabólica (SM).
A síndrome metabólica como componente do risco cardiometabólico
O risco cardiometábolico global compreende os fatores de risco tradicionais, integrantes das definições de SM, mas também uma série de outras anormalidades que vem sendo continuamente somadas ao espectro desta síndrome. (Figura 2).
Fig. 02 - Clique na imagem para ampliar
A multiplicidade de fatores, conhecidos e não-conhecidos (5,6), que compõem o risco cardiometabólico global faz com que o tratamento seja frequentemente sub-ótimo, situação largamente reconhecida pelos sistemas de saúde em várias partes do mundo.
O uso do termo risco cardiometabólico sucedeu o reconhecimento da SM. O principal marco no entendimento da SM ocorreu em 1988, com a constatação de Reaven da frequente associação da resistência à insulina, distúrbios da homeostase da glicose, hipertensao arterial, dislipidemia e doenca ateroesclerotica que a denominou inicialmente de Síndrome X (7). Uma série de anormalidades metabólicas foram acrescentadas ao espectro da síndrome e hoje, a terminologia mais empregada é a de SM. Considerando que as anormalidades que a compõe estão relacionadas ao estilo de vida moderno há expectativa de que aumente sua frequência nas populações.
A prevalência de SM na população americana foi estimada em 22 a 24%), sendo variável com a etnia (8,9). O uso de diferentes critérios diagnósticos também contribue para a variabilidade na prevalência da SM. A prevalência da SM em adultos está aumentando nos Estados Unidos (de 23,1% em 1988-1994 para 26,7% em 1999-2000) o que implica em aumento da morbi-mortalidade cardiovascular.
Há consenso de que os aspectos de maior relevância no diagnóstico de SM são os riscos de evolução ao DM tipo 2 para aqueles que ainda não o são e de DCV. Além disso, estudos prospectivos mostram que a mortalidade em adultos portadores de SM é pelo menos 2 a 3 vezes maior do que naqueles sem este diagnóstico (10). (Figura 3).
Fig. 03 - Clique na imagem para ampliar
Definições de síndrome metabólica
A comunidade científica tem propostos critérios de maior ou menor complexidade para definir a SM. Os critérios da OMS (World Health Organization) (11) e revisados em 2005 (12) estiveram entre os mais usados. Nestes, a obesidade era avaliada pelo IMC ou pela razão cintura-quadril; além de parâmetros glico-lipídicos e pressóricos inclui a microalbuminúria, indicativa de disfunção endotelial. Porém, a definição mais prática, largamente empregada, é a o National Cholesterol Education Program - Adult Treatment Panel - NCEP-ATP III (NCEP-ATPIII, 2001) (13)
Esta destaca a circunferência da cintura ao invés do IMC; a presença de pelo menos 3 dos parâmetros abaixo fecha o diagnóstico de SM. A tabela abaixo resume os principais critérios e indicadores propostos pelas várias associações médicas. AACE - Associação dos Endocrinologistas Clínicos; WHO é a Organização Mundial da Saúde; ATP como mencionado acima e IDF é a Federação Internacional de Diabetes. (14)
| Tabela 1 - Definições de síndrome metabólica | ||||
|---|---|---|---|---|
ATP-II
| WHO
| AACE
| IDF
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Elevação de TG
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sim
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sim
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sim
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sim
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HDL - C baixo
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sim
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sim
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sim
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sim
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Elevação da PA
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sim
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sim
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sim
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sim
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Resistência à Insulina
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sim
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sim
|
sim
|
sim
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Elevação da Glicoes
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sim
|
sim
|
sim
|
sim
|
Gilcemia Pós Prandial
|
sim
|
sim
|
sim
|
sim
|
Cintura Abdominal (C A)
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sim
|
sim
|
sim
|
sim
|
IMC Elevado
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sim
|
sim
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sim
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sim
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Micro Albuminúria
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sim
|
sim
|
sim
|
sim
|
Fatores de risco para o diagnóstico
|
3
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RI + 2
|
Clínico
|
CA+2
|
Nesta tabela ficam claramente identificados os critérios diagnósticos sugeridos pelas várias entidades ligadas ao diabetes.
A International Diabetes Federation - IDF reconheceu que a obesidade abdominal deveria ser colocada em primeiro plano, pré-requisito para este diagnóstico (Alberti 2005). Foram sugeridos valores de corte para circunferência abdominal, ressaltando que estes deveriam ser “etnia-específicos” e rebaixou os valores de corte de glicemia de jejum (100 mg/dL), de acordo com o proposto pela ADA. O quadro abaixo confronta a definição inicial da OMS com a da IDF. (Tabela 2)
| Tabela 2 - Critérios diagnósticos da síndrome metabólica, conforme as recomendações da OMS (1999) e da IDF (2005) | ||
|---|---|---|
Critérios da OMS 1999
| Critérios da IDF 2005
|
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| Tolerância à glicose diminuída, DM ou resistência à insulina | Obesidade central | |
Tolerância diminuída à glicose, diabetes mellitus, obesidade central ou resistência à insulina |
||
| Anormalidade do metabolismo da glicose | Tolerância à glicose diminuída, DM ou resistência à insulina | Glicemia de jejum > 100 mg/dl |
| Hipertensão Arterial · Pressão Arterial |
> 140/90 mmHg |
> 130/85 mmHg |
| Dislipidemia · Triglicérides · HDL-colesterol |
> 150 mg/dl e/ou < 35 mg/dl homens < 39 mg/dl mulheres |
> 150 mg/dl e < 40 mg/dl homens < 50 mg/dl mulheres |
| Obesidade | Razão cintura-quadril > 0,90 homens > 0,85 mulheres |
Circunferência > 94 cm homens > 80 cm mulheres |
| Microalbuminúria | Excreção urinária de albumina > 20 µg/min |
Não contempla |
* Recomendaçao para asiáticos: 90 cm homens e 80 cm mulheres
|
||
Também o Grupo Latino-Americano da Oficina Internacional de Informação em Lípides (Guias ILIB, 2002), o American College of Endocrinology- ACE, juntamente com a American Association of Clinical Endocrinologists - AACE (American College ofEndocrinology, 2003 (15) e o European Study Group for Insulin Resistance - EGIR (16) propuseram critérios, valorizando a presença de marcadores inflamatórios, tamanho da partícula de LDL, esteatose hepática, ovários policísticos, história familiar dentre outros no espectro de anormalidades da SM.
Outras terminologias também podem ser encontradas na literatura como “doença cardiometabólica” para expressar quadro superponente ao da SM. Sowers usa o termo “síndrome do risco cardiometabólico” quando da presença de obesidade central, resistência à insulina, HDL baixo, triglicérides elevados, hipertensão sistólica, aumento do estresse oxidativo e disfunção endotelial (17)
Fisiopatogênese da síndrome metabólica
Os componentes da SM presentes em todas as definições incluem a obesidade, dislipidemia, distúrbio do metabolismo da glicose e pressão arterial elevada. Ambas, obesidade e resistência à insulina, têm sido apontadas como os pontos-chave para a sequência de anormalidades que resultarão na síndrome.
É particularmente a obesidade de distribuição abdominal que mais se associa à geração de resistência à insulina. O grande aporte de ácidos graxos livres ao sistema porta, oriundos da gordura visceral, provoca alterações enzimáticas e metabólicas no tecido hepático. A resistência à insulina no fígado determina a hiperinsulinemia, os distúrbios de lipoproteínas típicos da SM (HDL-colesterol baixo, hipertriglicerirdemia e partículas pequenas e densas de LDL-colesterol), e aumento da produção de proteína C reativa, marcador de inflamação subclínica.
O tecido adiposo visceral também é fonte de adipocitocinas que deterioram a sensibilidade à insulina (como o TNF-alfa), provoca distúrbios da fibrinólise (aumento de PAI-1) e da adesão de moléculas ao endotélio, além de favorecer a elevação da pressão arterial (angiotensinogênio). Por outro lado, o acúmulo de gordura visceral provoca redução da única adipocina descrita até o presente que melhora a sensibilidade à insulina - a adiponectina. Esta teoria dos ácidos graxos livres também explica a resistência à insulina em tecidos periféricos (musculatura esquelética) nos quais os ácidos graxos competem com a glicose como substrato energético. Alguns autores acreditam que a SM tenha um perfil de maior risco do que os fatores de risco considerados isoladamente, ou seja, “a SM seria mais do que a soma das partes” (18,19,20,21,22).
Fig. 04 - Clique na imagem para ampliar
Fatores de risco não clássicos
Nos últimos anos tem surgido várias evidências sobre a participação de novas substâncias como marcadores ou fatores que efetivamente elevariam o risco cardiovascular. Muitas destas evidências ainda requerem confirmação em estudos com delineanentos adequados e casuísticas maiores para que possam ser estabelecidas relações do tipo causa-efeito com as DCV. (Figura 5)
Fig. 05 - Clique na imagem para ampliar
Condutas na prática clínica com relação ao risco cardiovascular de pacientes diabéticos
Em setembro de 2006, a Associação Americana de Cardiologia e a Associação Americana de Diabetes publicaram um documento procurando harmonizar as recomendações das 2 entidades com relação ao risco de DCV no DM (23). Uma parte importante, contemplada nestas diretrizes, é que muitos pacientes diabéticos não sabem ser portadores de DCV e muitas vezes não sobrevivem nem ao primeiro evento cardiovascular, que pode ser um infarto agudo do miocárdio. Além disso, quando sobrevivem, sua mortalidade é bem maior que a observada na população geral. A fim de facilitar a prática clínica e diminuir os eventos cardiovasculares em pacientes diabéticos, as entidades fazem as seguintes recomendações:
1. Realizar avaliação individual e acurada dos riscos de DCV em pacientes diabéticos
É evidente que não necessita ser realizado em indivíduos jovens ou recém-diagnosticados. A avaliação do risco deve ser individualizada, utilizando alguns algoritmos que são melhores ferramentas do que as clássicas recomendações das diretrizes utilizadas por especialistas.
Três destas ferramentas já foram amplamente testadas e podem, inclusive, ser instaladas e utilizadas em computadores de consultório. São elas:
2. Maior rigor no gerenciamento do estilo de vida
Vários trabalhos revelam que mudanças no estilo de vida - alimentação saudável e prática de exercícios - contribuem efetivamente para melhora do perfil lipídico e redução da pressão arterial. Tradicionalmente, as intervenções clássicas já propoem perda de peso, mas acredita-se que maior enfoque deva ser dado com relação à prevenção das DCV, especialmente no controle da pressão arterial. Estes pontos serão abordados em maior profundidade nos módulos seguintes deste e-book.
3. Maior atenção no controle da pressão arterial
Análises epidemiológicas e vários estudos clínicos já mostraram que o controle da pressão arterial é essencial na diminuição das complicações micro e macrovasculares do DM. É por esta razão que cada vez mais se argumenta que o controle da pressão arterial é o fator mais crítico nos cuidados com pacientes diabéticos. O risco de eventos cardiovasculares e morte começam a aumentar quando a pressão atinge valores maiores que 135 x 75 mmHg na população geral e o risco dobra a cada aumento de 20 mmHg na pressão sistólica e de 10 mmHg na diastólica. Por esta razão, o tratamento da hipertensão arterial receberá destaque especial neste e-book (24).
4. Melhor controle dos lípides
Grande número dos pacientes diabéticos apresentam elevação dos triglicérides com redução do HDL. Os níveis de LDL-colesterol podem estar normais ou discretamente elevados, sendo as partículas pequenas e densas as mais aterogênicas. Assim, considerar exclusivamente a concentração de LDL-colesterol pode dar uma falsa impressão do risco cardiovascular. Estudo “in vitro” revela estas partículas sofrem glicosilação e oxidação, tornando-se mais deletérias. Embora os valores de LDL em indivíduos diabéticos nem sempre estejam elevados, sugere-se que deva ser alvo importante no tratamento, uma vez que vários estudos mostram que sua redução tem relação nítida com a diminuição de eventos cardiovasculares (25).
5. Agentes anti-agregantes plaquetários
O ácido acetilsalicílico é hoje reconhecido como a intervenção de maior custo-efetividade na redução de DCV, não só na população geral, como na diabética (26). É preciso lembrar que ácido acetilsalisílico pode causar hemorragias gastrintestinais e que não deve ser usado preventivamente em populações nas quais o risco cardiovascular é menor que 1%.
6. Fumo
O fumo se constitui em importante fator de risco para DCV tanto na população geral como na diabética (27). Este hábito deve ser constantemente questionado e todos os pacientes diabéticos devem ser aconselhados a não iniciá-lo ou parar de usá-lo imediatamente no caso de ser fumante.
7. Maior atenção no controle da glicemia
O controle glicêmico reduz claramente as complicações microvasculares de pacientes diabéticos; entretanto, uma das questões mais debatidas pelos especialistas é sua capacidade de reduzir a morbidade das DCV. Segundo a ADA, a meta de controle é uma hemoglobina glicada (A1c) menor que 7%, mas sugere que deva ser buscado um valor próximo ou menor que 6%, sem causar hipoglicemias recorrentes.
Estas recomendações são baseadas em estudos epidemiológicos que sugerem que para cada aumento de 1% na A1c, o risco de eventos cardiovasculares cresce de 15 a 18% para os pacientes do tipo 1 e 2, respectivamente. Atualmente, estudos clínicos estão sendo conduzidos para se verificar que níveis de A1c relacionam-se ao maior benefício cardiovascular.
Componentes de uma avaliação clínica completa em pacientes diabéticos
As recomendações clínicas da Associação Americana de Diabetes de 2007 estão a seguir (28):
História
Exame Físico
Fig. 06 - Clique na imagem para ampliar
Avaliação laboratorial
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Leituras adicionais
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