Resistência à insulina no diabetes tipo 2

Capítulo 7

Dr. Mário José Abdalla Saad
Dr. Henrique Gottardello Zecchin

Introdução

Diabetes melito é um grupo heterogêneo de doenças metabólicas caracterizado por hiperglicemia. Na forma mais comum da doença, o tipo 2, as etiologias ainda não estão estabelecidas. Há um componente genético, ainda mal definido, e a obesidade, a inatividade física e o envelhecimento desencadeiam ou aceleram o aparecimento da doença. O DM2 parece ser poligênico, com polimorfismos que devem facilitar a instalação da resistência à insulina, bem como a redução de massa de células β No paciente com DM2 a hiperglicemia e outras alterações metabólicas agravam a resistência e pioram a secreção de insulina, dificultando a investigação da seqüência patogênica nessa forma de diabetes. Nesse sentido, diversos estudos procuraram investigar em parentes em primeiro grau de pacientes com DM2 e em indivíduos com intolerância à glicose, possíveis alterações primárias, tentando caracterizar como se dá a instalação do DM2. Nos últimos anos houve grande progresso na definição das características clínicas de indivíduos que desenvolverão DM2, bem como em alterações moleculares envolvidas na patogênese dessa forma de diabetes.

Dr. Mário José Abdalla Saad
Dr. Henrique Gottardello Zecchin

Diabetes melito é um grupo heterogêneo de doenças metabólicas caracterizado por hiperglicemia. Na forma mais comum da doença, o tipo 2, as etiologias ainda não estão estabelecidas. Há um componente genético, ainda mal definido, e a obesidade, a inatividade física e o envelhecimento desencadeiam ou aceleram o aparecimento da doença. O DM2 parece ser poligênico, com polimorfismos que devem facilitar a instalação da resistência à insulina, bem como a redução de massa de células β No paciente com DM2 a hiperglicemia e outras alterações metabólicas agravam a resistência e pioram a secreção de insulina, dificultando a investigação da seqüência patogênica nessa forma de diabetes. Nesse sentido, diversos estudos procuraram investigar em parentes em primeiro grau de pacientes com DM2 e em indivíduos com intolerância à glicose, possíveis alterações primárias, tentando caracterizar como se dá a instalação do DM2. Nos últimos anos houve grande progresso na definição das características clínicas de indivíduos que desenvolverão DM2, bem como em alterações moleculares envolvidas na patogênese dessa forma de diabetes.

Estudos transversais em diferentes populações mostram que indivíduos com intolerância à glicose são em geral mais obesos, resistentes à insulina e apresentam níveis insulinêmicos mais elevados. Eles também apresentam alterações na fase rápida de secreção de insulina (menores elevações insulinêmicas após estímulo glicídico). Assim, alterações na sensibilidade e na secreção de insulina são eventos metabólicos que podem ser identificados em indivíduos que desenvolverão diabetes, anos antes da doença se tornar evidente. Estas anormalidades se agravam na evolução de uma situação de tolerância à glicose normal para intolerância, e finalmente DM2. Aumento da produção hepática de glicose é evidente somente após início do DM2, e piora em proporção à gravidade da hiperglicemia.

A hiperglicemia crônica, mesmo que discreta, agrava a resistência e a secreção de insulina. Entretanto, o mecanismo preciso dessa glicotoxicidade não está bem estabelecido. Adicionalmente, o conceito de lipotoxicidade também é usado para explicar a patogênese do DM2. Os autores que propagam esta teoria sugerem que a elevação dos níveis de ácidos graxos livres circulantes e no meio intracelular induz alterações na secreção e ação insulínicas que caracterizam o desenvolvimento do DM2. Nos últimos anos observou-se que a resistência à insulina e o DM2 estão associados à ativação do sistema imune inato, manifestada por elevação dos níveis circulantes de marcadores inflamatórios. As citocinas pró-inflamatórias ou reagentes de fase aguda que elas estimulam induzem resistência à insulina, bem como alterações de secreção deste hormônio. A origem da associação entre inflamação e DM2 permanece desconhecida. Entretanto, o tecido adiposo produz algumas citocinas (TNFα, IL-6), e é possível que o sistema imune medeie o efeito da superalimentação na resistência à insulina, na alteração da secreção de insulina e no desenvolvimento do DM2.

Para que sejam compreendidos os mecanismos moleculares que contribuem para a patogênese do DM2, é necessário inicialmente descrever como a insulina transmite seu sinal celular desde o receptor específico até os efetores finais. A seguir descreveremos os possíveis mecanismos moleculares de resistência à insulina, o controle celular e molecular da massa de células b, sugerindo possíveis mecanismos moleculares que integram as alterações encontradas no DM2, resistência à insulina, aumento da produção hepática de glicose e alteração na secreção de insulina.

Etapas Iniciais da Sinalização Insulínica

A insulina é um hormônio polipeptídico anabólico produzido pelas células beta do pâncreas, cuja síntese é ativada pelo aumento dos níveis circulantes de glicose e aminoácidos após as refeições. A insulina age em vários tecidos periféricos, incluindo músculo, fígado e tecido adiposo. Seus efeitos metabólicos imediatos incluem: aumento da captação de glicose, principalmente nos tecidos muscular e adiposo, aumento da síntese de proteínas, ácidos graxos e glicogênio, bem como bloqueios da produção hepática de glicose (via diminuição da neoglicogênese e glicogenólise), da lipólise e da proteólise. Além disso, a insulina tem efeitos na expressão de genes e síntese protéica, assim como na proliferação e diferenciação celulares. Outras funções da insulina incluem o aumento da produção de óxido nítrico no endotélio, a prevenção da apoptose ou morte celular, a promoção da sobrevida celular e o controle da ingestão alimentar.

O Receptor de Insulina

A figura 1 mostra um esquema simplificado das etapas de sinalização intracelular desde a ligação da insulina ao seu receptor (IR) até a ativação do transporte de glicose. Os eventos que ocorrem após a ligação da insulina ao seu receptor são altamente regulados e específicos . A sinalização intracelular da insulina começa com sua ligação a um receptor específico de membrana, uma proteína heterotetramérica com atividade quinase intrínseca, composta por duas subunidades a e duas subunidades b, que atua como uma enzima alostérica na qual a subunidade a inibe a atividade tirosina quinase da subunidade b. A ligação da insulina à subunidade a permite que a subunidade b adquira atividade quinase levando à alteração conformacional e autofosforilação do receptor nas subunidades b em múltiplos resíduos de tirosina (1158, 1162, 1163), o que aumenta ainda mais a sua atividade quinase.

 As vias de sinalização da insulina

Fig. 01 - Clique na imagem para ampliar

Os Substratos do Receptor de Insulina

Uma vez ativado, o IR fosforila vários substratos protéicos em tirosina. Atualmente, dez substratos do receptor de insulina já foram identificados. Quatro desses pertencem à família dos substratos do receptor de insulina, as proteínas IRS . Outros substratos incluem Shc, Gab-1, p60, Cbl, JAK2 e APS . A fosforilação em tirosina das proteínas IRS cria sítios de reconhecimento para moléculas contendo domínios com homologia a Src 2 (SH2), dentre as quais se destaca a fosfatidilinositol 3-quinase (PI 3-quinase). As funções fisiológicas do IRS-1 e IRS-2 foram estabelecidas através de camundongos sem os genes que codificam estes substratos (camundongos knockout para IRS-1 e -2). O camundongo que não expressa IRS-1 apresenta resistência à insulina e retardo de crescimento, mas não é hiperglicêmico . Foi sugerido que o IRS-2 poderia compensar parcialmente a ausência de IRS-1, o que explicaria o fenótipo de resistência à insulina sem hiperglicemia do camundongo knockout para IRS-1. O camundongo que não expressa o IRS-2 foi então gerado e apresenta um fenótipo diferente do camundongo sem IRS-1: hiperglicemia acentuada devido a diversas anormalidades na ação da insulina nos tecidos periféricos e a falência da atividade secretória acompanhada de redução significativa da massa de células b pancreáticas. Em contraste, camundongos knockout para o IRS-3 e IRS-4 têm crescimento e metabolismo de glicose quase normal .

 

A PI 3-quinase e a proteína quinase B (PKB/Akt)

A PI 3-quinase é importante na regulação da mitogênese, diferenciação celular e transporte de glicose estimulado pela insulina . Atualmente, essa é a única molécula intracelular considerada essencial para o transporte de glicose. A PI-3 quinase foi originalmente identificada como um dímero composto de uma subunidade catalítica (p110) e uma subunidade regulatória (p85). A ligação dos sítios YMXM e YXXM (onde Y=tirosina, M=metionina e X=qualquer aminoácido) fosforilados das proteínas IRS ao domínio SH2 da subunidade p85 da PI 3-quinase ativa o domínio catalítico associado da sununidade p110 . A enzima catalisa a fosforilação dos fosfoinositídeos na posição 3 do anel de inositol produzindo fosfatidilinositol-3-fosfato, fosfatidilinositol-3,4-difosfato e fosfatidilinositol-3,4,5-trifosfato . Este último produto liga-se aos domínios PH (pleckstrin homology) de diversas moléculas sinalizadoras alterando sua atividade e localização subcelulares . Além disso, a PI 3-quinase também possui atividade serina-quinase e, como suas duas subunidades podem interagir com outras proteínas sinalizadoras, esta enzima pode ser importante na ação da insulina independentemente da produção de fosfatidilinositol-3,4,5-trifosfato.

O produto fosfatidilinositol-3,4,5-trifosfato gerado pela PI 3-quinase pode regular a PDK-1 (phosphoinositide-dependent kinase 1), uma serina/treonina quinase que fosforila e ativa outra serina/treonina quinase conhecida por Akt ou PKB. Esta última possui um domínio PH que interage diretamente com fosfatidilinositol-3,4,5-trifosfato, promovendo o direcionamento da proteína para a membrana celular, bem como sua atividade catalítica. Seus efeitos são dependentes da ativação de várias quinases intracelulares envolvidas na transmissão do sinal de insulina até a captação de glicose, a síntese de glicogênio e a síntese protéica. Além de fosforilar a Akt, há evidências de que a PDK-1 seja capaz de, em resposta à insulina, fosforilar isoformas atípicas da PKC (ζ e λ) envolvidas na síntese protéica e no transporte de vesículas de GLUT4 para a membrana celular para promover a captação de glicose. Isso demonstra que o transporte de glicose pode ser mediado por diferentes vias de sinalização intracelular (Akt e PKCζ/λ); essa diversidade de sinalização pode proporcionar mecanismos compensatórios em casos de mutações afetando a Akt ou isoformas da PKC.

Permanecem obscuros os mecanismos pelos quais as etapas iniciais de sinalização da insulina convergem para as vesículas que contêm GLUT4 promovendo o seu transporte para a membrana celular. No jejum, GLUT4 é continuamente reciclado entre a membrana celular e os vários compartimentos intracelulares. Na presença do estímulo da insulina, a taxa de exocitose das vesículas contendo GLUT4 aumenta intensamente, além de ocorrer pequena redução na taxa de internalização. A exocitose estimulada pela insulina é similar à exocitose de vesículas sinápticas. As vesículas de GLUT4, em particular, contêm as proteínas V-SNARE, VAMP2 e VAMP3, que fisicamente interagem com seus pares t-SNARE (sintaxina 4 e SNAP23) na membrana celular durante a translocação das vesículas de GLUT4. Apesar de essas interações serem essenciais para a translocação do GLUT4, nenhuma dessas proteínas parece ser alvo da insulina. No entanto, pode-se especular que alterações específicas dos complexos de proteínas SNARE, que atuam paralelamente à via da PI 3-quinase, possam contribuir para a resistência à insulina.

 

A via CAP/Cbl

Além da ativação da PI 3-quinase, outros sinais também podem ser necessários para que a insulina estimule o transporte de glicose. Essa segunda via envolve a fosforilação do protoncogene c-Cbl e aparentemente não depende da ativação da PI 3-quinase. Na maioria dos tecidos sensíveis à insulina, Cbl está associado com a proteína adaptadora CAP (Cbl-associated protein). Após a fosforilação, o complexo Cbl-CAP migra para a membrana celular e interage com a proteína adaptadora CrkII, que também está constitutivamente associada à proteína C3G. A C3G é uma proteína trocadora de nucleotídeos que catalisa a troca de GDP por GTP da proteína TC10, ativando-a. Uma vez ativada, a proteína TC10 desencadeia um segundo sinal para a translocação de vesículas contendo GLUT4 para a membrana celular, em paralelo à ativação da via da PI 3-quinase. Recentemente foi demonstrado que a insulina estimula agudamente a fosforilação em tirosina de Cbl e sua associação com a CAP no tecido adiposo de animais normais, e também que esta via pode participar do controle da massa de tecido adiposo em modelos animais de resistência à insulina.

 

Cascatas de fosforilação estimuladas pela insulina

Semelhante a outros fatores de crescimento, a insulina ativa a via da MAP (mitogen-activated protein) quinase. Essa via inicia-se com a fosforilação das proteínas IRS e/ou Shc, que interagem com a proteína Grb2. A Grb2 está constitutivamente associada à SOS, proteína que troca GDP por GTP da Ras, ativando-a. A ativação da Ras requer a participação da SHP2. Uma vez ativada, Ras estimula a fosforilação em serina da cascata da MAP quinase, o que estimula a proliferação e diferenciação celulares. O bloqueio farmacológico dessa via inibe a ação da insulina sobre o crescimento celular, mas não tem efeito nas ações metabólicas do hormônio.

Diversos estudos têm demonstrado que a ativação da via da MAP quinase pela insulina não está reduzida no diabetes tipo 2 e em outros estados de resistência à insulina, podendo até mesmo estar aumentada. Assim, a regulação diferencial da sinalização de insulina que ocorre nas artérias, com ativação normal ou aumentada da via da MAP quinase, poderia contribuir para o desenvolvimento de aterosclerose associada à resistência à insulina.

 

Regulação da síntese de glicogênio

A insulina inibe a produção e liberação de glicose no fígado através do bloqueio da neoglicogênese e glicogenólise (figura 2). A insulina estimula o acúmulo de glicogênio através do aumento do transporte de glicose no músculo e síntese de glicogênio no fígado e no músculo. Este último efeito é obtido via desfosforilação da glicogênio-sintetase. Após estímulo com insulina a Akt fosforila e inativa a GSK-3, o que diminui a taxa de fosforilação da glicogênio-sintetase, aumentando sua atividade. A insulina também ativa a proteína fosfatase 1, por um processo dependente da PI 3-quinase, que desfosforila a glicogênio-sintetase diretamente. Na neoglicogênese, a insulina inibe diretamente a transcrição de genes que codificam a fosfoenolpiruvato-carboxiquinase (PEPCK), enzima chave no controle desse processo. Este hormônio também diminui a taxa de transcrição do gene que codifica a frutose-1,6-bifosfatase e a glicose 6-fosfatase e aumenta a transcrição de genes de enzimas glicolíticas como a glicoquinase da piruvato quinase. Apenas recentemente tornou-se conhecido o mecanismo através do qual a insulina regula a expressão de genes no fígado, apesar do grande progresso na compreensão dos mecanismos de ação da insulina.

Experimentos genéticos no verme C. elegans identificaram um fator de transcrição da família forkhead denominado Daf16, como um efetor chave da sinalização de insulina. O ortólogo do Daf16 em mamíferos é um fator de transcrição conhecido por FoxO (FOrkhead boX-containing gene, O subfamily) e este tem ação negativa sobre a sinalização de insulina. As proteínas Foxo são substratos da Akt in vivo. Na ausência de insulina, Foxo1 permanece amplamente desfosforilada e localizada no núcleo, onde se liga ao PGC-1a (peroxisome proliferator activated receptor-g coactivator-1a) e Cbp/p300 para promover a transcrição dos genes Pck1 e G6pc. Na presença do estímulo desencadeado pela insulina através da via da PI 3-quinase, a Akt cataliza a fosforilação da Foxo1 em Ser253, resultando em saída deste fator do núcleo e promoção da produção hepática de glicose. A insulina promove a fosforilação do complexo Foxo1/PGC-1a, dissociando-o e permitindo que a Foxo1 se redistribua para o citoplasma.

A haploinsuficiência do gene da Foxo1 restaura a sensibilidade à insulina em camundongos resistentes à insulina através da redução da expressão hepática de genes glicogenéticos e do aumento da expressão de genes no tecido adiposo que elevam a sensibilidade à insulina. Ao contrário, mutações que resultam em aumento de função da Foxo1 no fígado resultam em diabetes melito em decorrência do aumento da produção hepática de glicose. Além de restaurar a sensibilidade à insulina em um modelo genético de resistência à insulina, a haploinsuficiência da Foxo1 protege contra diabetes induzido por dieta em camundongos, sugerindo que o controle dos níveis teciduais da Foxo1 pode representar um alvo terapêutico potencial para o diabetes.

A insulina também altera a quantidade de ácidos graxos livres liberados da gordura visceral. É necessário destacar que os ácidos graxos livres não são substratos da neoglicogênese, mas atuam modulando esta via de produção de glicose.

Regulação do metabolismo de glicose no fígado

Fig. 02 - Clique na imagem para ampliar

Regulação da síntese e degradação de lipídios

A homeostase de lipídios em células de vertebrados é regulada por uma família de fatores de transcrição designada SREBP (sterol regulatory element-binding proteins) (figura 3). Estes fatores ativam diretamente a expressão de aproximadamente 30 genes implicados na síntese e captação de colesterol, ácidos graxos, triglicérides e fosfolipídios, assim como de NADPH, um cofator necessário para a síntese dessas moléculas. No fígado, três SREBPs regulam a produção de lipídios. SREBP-1c aumenta preferencialmente a transcrição de genes envolvidos na síntese de ácidos graxos, entre eles a acetil-CoA carboxilase (ACC), que converte a acetil-CoA em malonil-CoA e a ácido graxo-sintetase (FAS), que converte a malonil-CoA em palmitato. Uma ação clássica da insulina é estimular a síntese de ácidos graxos no fígado em períodos de excesso de carboidratos. Várias evidências sugerem que esses efeitos da insulina são mediados pelo aumento do SREBP-1c. In vivo, a quantidade total de SREBP-1c no fígado é reduzida pelo jejum, que suprime a secreção de insulina, e aumenta com a realimentação. De forma semelhante, os níveis de mRNA do SREBP-1c diminuem em animais com diabetes induzido por estreptozotocina e aumentam após tratamento com insulina.

A hiperexpressão do SREBP-1c no fígado de animais transgênicos previne a redução do mRNA das enzimas lipogênicas. Muitos indivíduos com obesidade e resistência à insulina apresentam esteatose hepática. As evidências indicam que a esteatose hepática da resistência à insulina é causada pelo acúmulo de SREBP-1c, que está elevado em resposta aos altos níveis circulantes de insulina. De maneira semelhante, os níveis de SREBP-1c estão elevados no fígado de camundongos ob/ob. Apesar da presença de resistência à insulina nos tecidos periféricos, a insulina continua a ativar a transcrição do SREBP-1c no fígado desses camundongos. O nível elevado de SREBP-1c nuclear aumenta a expressão de genes lipogênicos, a síntese de ácidos graxos e o acúmulo de triglicérides. Em adipócitos a insulina também reduz a lipólise através da inibição da lipase hormônio-sensível. Esta enzima é ativada pela PKA (proteína quinase A). A insulina inibe a atividade da PKA, ativando a fosfodiesterase AMP cíclico específica (PDE3B), que reduz os níveis de AMP cíclico nos adipócitos. A ativação da PDE3B é dependente e distal à ativação da PI 3-quinase e Akt pela insulina.


Regulação do metabolismo de lipídios no fígado

Fig. 03 - Clique na imagem para ampliar

O que causa resistência à insulina?

A resistência à insulina da obesidade e do diabetes tipo 2 é caracterizada por alterações em diversos pontos da via de transmissão do sinal da insulina, com redução da concentração e da atividade quinase do IR, da concentração e da fosforilação do IRS-1 e -2, da atividade da PI 3-quinase, da translocação dos transportadores de glicose (GLUTs) e da atividade das enzimas intracelulares. Isso pode ocorrer em paralelo à manutenção da ativação normal da via mitogênica, representada pela MAP quinase.

Fatores genéticos e adquiridos podem influenciar a sensibilidade à insulina. Defeitos genéticos no IR são relativamente raros, mas representam as formas mais graves de resistência à insulina, e são exemplificados pelo leprechaunismo, pela síndrome de Rabson Mendenhall e pela síndrome de resistência à insulina tipo A. Diferenças na apresentação clínica podem ser decorrentes da gravidade do defeito genético, da capacidade dos receptores mutantes de formar híbridos com outros receptores (por exemplo, o de IGF-1), e outros fatores de base, genéticos e adquiridos, que modificam o estado de resistência à insulina. A síndrome de resistência à insulina e o diabetes tipo 2 são poligênicos e podem envolver polimorfismos em vários genes que codificam as proteínas envolvidas nas vias de sinalização da insulina, na secreção de insulina e no metabolismo intermediário.

Deleções selecionadas de componentes da sinalização de insulina in vivo usando recombinação homóloga permitiram novas interpretações sobre a complexidade destes mecanismos. Embora alguns defeitos únicos na via de sinalização da insulina possam resultar em diabetes (knockout do IR, do IRS-2 ou da Akt2), outros não (knockout da subunidade p85 da PI 3-quinase, do IRS-1 e do GLUT4). Além disso, knockout de genes que estão envolvidos em “desligar” o sinal de insulina, como a PTP1B e a SHIP2, melhoram o diabetes em roedores obesos.

Combinações de knockouts foram produzidas para mimetizar o diabetes tipo 2 poligênico, com deleções heterozigotas do IR e do IRS-1; do IR, do IRS-1 e do IRS-2; e do IRS-1 e da glicoquinase. Em algumas dessas combinações houve clara evidência de epistasis genética (interação gene-gene). Por exemplo, embora o knockout heterozigoto do IR ou do IRS-1 isolados não resultem em diabetes, o knockout duplo-heterozigoto leva 50% dos camundongos a desenvolver diabetes. Este achado marcante propiciou novas possibilidades etiopatogênicas para o diabetes tipo 2, no qual alterações únicas na expressão do IR ou do IRS-1 geram alterações modestas na capacidade de transmissão intracelular do sinal, mas quando combinadas podem levar à doença.

Um modelo genético que produziu um fenótipo intrigante com relação à homeostase de glicose surgiu a partir dos knockouts das subunidades regulatórias p85a da PI 3-quinase. Embora a PI 3-quinase seja central nas ações metabólicas da insulina, o camundongo knockout heterozigoto para a p85a exibe aumento da sensibilidade à insulina. Além disso, quando essa mutação é produzida em conjunto com o duplo knockout heterozigoto IR/IRS-1, ela protege contra o diabetes. Esta surpreendente proteção parece ser decorrente de um fator único na via de sinalização da insulina, na qual o balanço estequiométrico entre a p85a, a subunidade catalítica p110 e as proteínas IRS é crítico para a transmissão do sinal.

A participação de tecidos específicos na patogênese da resistência à insulina e do diabetes tipo 2 tem sido explorada usando a tecnologia de recombinação de DNA Cre-lox para criar knockouts tecido-específicos do IR e do GLUT4. Apesar da ausência de diabetes em camundongos com knockout global de GLUT4, knockouts tecido-específicos do GLUT4 no músculo e tecido adiposo resultaram em diminuição acentuada da tolerância à glicose. Os knockouts tecido-específicos do IR também produziram resultados interessantes. Como observado acima, apesar do conhecimento prévio de que a insulina estimula a captação de glicose primariamente no músculo, camundongos com knockout do IR no músculo apresentam tolerância à glicose normal . Isto ocorre, ao menos parcialmente, como resultado do redirecionamento da captação de glicose para a gordura, com subseqüente aumento na massa de tecido adiposo, ácidos graxos livres circulantes e triglicérides. Camundongos com knockout adiposo-específico do IR também apresentam tolerância à glicose normal, enquanto o knockout fígado-específico do IR apresenta diminuição da tolerância à glicose e redução do clearence de insulina, com acentuada hiperinsulinemia.

Talvez os resultados mais surpreendentes, entretanto, tenham surgido de estudos de camundongos com knockout tecido-específicos do IR na célula beta e no sistema nervoso central. O primeiro exibe defeito acentuado na secreção de insulina estimulada por glicose, semelhante ao observado no diabetes tipo 2, enquanto o último exibe aumento da ingesta alimentar, adiposidade discreta, resistência à insulina e hipertrigliceridemia, assim como redução da fertilidade em decorrência de hipogonadismo hipotalâmico. Em conjunto, esses achados sugerem uma hipótese unificadora para o diabetes tipo 2, na qual a resistência à insulina em órgãos-alvo clássicos (fígado, músculo e tecido adiposo), combinada à resistência à insulina na célula beta, cérebro e outros tecidos, pode resultar no diabetes tipo 2.

Resistência à insulina tecido-específica. A fisiopatologia do DM2 envolve resistência à insulina e deficiência relativa da secreção de insulina. A desregulação das múltiplas etapas do controle glicêmico é decorrente de resistência à insulina no fígado, músculo esquelético, tecido adiposo, hipotálamo e pâncreas. O desenvolvimento de resistência seletiva à insulina no endotélio vascular contribui para redução da produção de óxido nítrico local e aceleração da aterosclerose)

Fig. 04 - Clique na imagem para ampliar

Inflamação, estresse e diabetes

A associação entre obesidade e diabetes tem sido reconhecida há décadas. No entanto, os mecanismos através dos quais o aumento de tecido adiposo pode resultar em defeitos sistêmicos da ação da insulina ainda não são completamente conhecidos. Diversos estudos clínicos e epidemiológicos realizados na última década têm demonstrado forte correlação entre metabolismo e imunidade, apoiando até mesmo teorias evolucionárias. Hoje está claro que, na obesidade e no diabetes tipo 2, vários tecidos sensíveis à insulina, particularmente o tecido adiposo, exibem um estado de inflamação crônica de baixo grau.

A sobrevivência de organismos multicelulares depende da sua habilidade para combater infecções e reparar danos e da capacidade de armazenar energia para os períodos de maior demanda energética ou escassez de nutrientes. Talvez por isso, durante a evolução, as vias imunológicas e metabólicas tenham sido altamente conservadas e interdependentes. Muitos hormônios, citocinas, proteínas sinalizadoras, fatores de transcrição e lipídios bioativos podem desempenhar tanto funções metabólicas quanto imunológicas. Além de usar as mesmas estruturas celulares, os sistemas metabólico e imunológico também se regulam um ao outro. A resposta inflamatória básica favorece um estado catabólico e suprime as vias anabólicas, incluindo a altamente conservada via de sinalização da insulina. A integração entre metabolismo e imunidade, altamente benéfica para a manutenção da homeostase em situações normais, pode tornar-se prejudicial em situações de desnutrição ou obesidade. A associação entre desnutrição e imunossupressão é bastante clara. No entanto, no último século, com a pandemia de obesidade, doenças inflamatórias associadas à sobrecarga metabólica têm se tornado cada vez mais comum: diabetes tipo 2, NAFLD (nonalcoholic fatty liver disease), inflamação de vias aéreas e aterosclerose.

 

Obesidade e inflamação

Pouco mais de uma década atrás, o primeiro elo molecular entre inflamação e obesidade, o fator de necrose tumoral-a (TNF-a), foi identificado quando descobriu-se que esta citocina inflamatória apresenta expressão aberrante no tecido adiposo de modelos animais de obesidade. Assim como nos camundongos, TNF-a é hiperexpresso no tecido adiposo e no músculo esquelético de humanos obesos. O tratamento de células em cultura ou de modelos animais com TNF-a recombinante reduz a ação da insulina, e camundongos obesos sem receptores de TNF-a ou com receptores não-funcionais têm melhor sensibilidade à insulina comparada aos seus controles. Assim, particularmente em modelos experimentais, está evidente que o produção aumentada de TNF-a no tecido adiposo é uma característica importante da obesidade que contribui significativamente para a resistência à insulina.

A partir de então, surgiram cada vez mais evidências da existência de uma resposta inflamatória ampla na obesidade, além da demonstração de que muitos mediadores inflamatórios exibem padrões de expressão e têm impacto sobre a ação da insulina semelhante ao TNF- na obesidade, em diversos modelos animais. Diversos estudos têm demonstrado que os genes de resposta inflamatória e de resposta ao stress estão entre os genes mais intensamente regulados no tecido adiposo de animais obesos. Algumas das citocinas inflamatórias que regulam o metabolismo também participam da regulação da resposta imune, como a leptina, adiponectina, resistina e visfatina.

Os lipídios também participam da regulação coordenada da inflamação e metabolismo. A elevação da concentração de lipídios no plasma ocorre na obesidade, infecção e em outros estados inflamatórios. A hiperlipidemia na obesidade contribui para o agravamento da resistência à insulina periférica e para o desenvolvimento da aterosclerose. É interessante notar que as alterações metabólicas da resposta inflamatória aguda são também pró-aterogênicas; assim, a alteração metabolismo de lipídios é benéfica de forma aguda na defesa contra infecções, mas é prejuducial se for mantida por longos períodos. Os lipídios bioativos também têm importância crítica na regulação de determinadas vias de sinalização através das FABPs (fatty acid-binding proteins) e de receptores nucleares.

O alto grau de coordenação entre as vias inflamatórias e metabólicas é ressaltado pela sobreposição das atividades e funções biológicas de macrófagos e adipócitos na obesidade. A expressão de genes por estes dois tipos celulares é muito semelhante.

Integração das respostas imunológicas e metabólicas nos adipócitos e macrófagos através de mecanismos compartilhados. Sob condições normais, os adipócitos armazenam lipídios e participam da regulação do metabolismo, enquanto os macrófagos atuam na resposta inflamatória; no entanto, uma destas células pode desempenhar as funções da outra. Na obesidade, o tecido adiposo torna-se inflamado, tanto pela infiltração de macrófagos quanto pela produção de citocinas inflamatórias pelas células adiposas. A inflamação do tecido adiposo é uma etapa crucial no desenvolvimento da resistência à insulina. Além disso, em condições que favorecem o desenvolvimento de aterosclerose, como a obesidade e a dislipidemia, os macrófagos acumulam lipídios tornando-se células espumosas. Adipócitos e macrófagos compartilham a expressão de citocinas, FABPs (proteínas ligadoras de ácidos graxos), receptores de hormônios nucleares (PPAR e LXR) e muitos outros fatores. ]; os macrófagos, expressam praticamente todos os genes expressos pelos adipócitos, como FABP aP2 (também chamado FABP4) e PPARg, enquanto os adipócitos podem expressar muitas proteínas dos macrófagos, como TNF-a, IL-6 e MMPs 117-120. A capacidade funcional destas duas células também se sobrepõe. Os macrófagos podem captar e armazenar lipídios, tornando-se células espumosas envolvidas no processo de aterosclerose. Os pré-adipócitos, sob determinadas condições, podem exibir atividade fagocítica e antimicrobiana e até mesmo ser capazes de se diferenciar em macrófagos 121, 122. Além disso, na obesidade, macrófagos se acumulam no tecido adiposo branco, ao lado dos adipócitos 123, 124. Estes macrófagos, no tecido adiposo, contribuem para a produção de mediadores inflamatórios que podem induzir resistência à insulina.

Fig. 05 - Clique na imagem para ampliar

Vias inflamatórias e resistência à insulina


Modelo para interrelações entre obesidade, resistência à insulina e diabetes através das vias inflamatórias. AGL, ácidos graxos livres; FABP, proteínas ligadoras de ácidos graxos; TNF-a, fator de necrose tumoral-a; IR, receptor de insulina; IRS-1pSer, substrato 1 do IR fosforilado em serina; TNF-R, receptor de TNF; PKC, proteína quinase C; JNK, c-JUN N-terminal quinase; as linhas pontilhadas representam relações que ainda não estão completamente estabelecidas

Fig. 06 - Clique na imagem para ampliar

Dentre outras quinases que podem fosforilar resíduos de serina no IRS-1 e assim, possivelmente, alterar a ação celular da insulina, estão algumas isoformas da PKC (e, a, d, b2 e q) e a MEK (MAP quinase quinase) 1/2. Recentemente, também foi descrito que a mTOR (mammalian target of rapamycin) pode fosforilar o IRS-1 em serina na presença do TNF-a. A supressão de serinas/treoninas-fosfatases ou a ativação de proteínas-tirosinas-fosfatases (PTPases) também pode ser importante na resistência à insulina provocada pelo TNF-a.

Além da via da JNK, outra via inflamatória ativada pelo TNF-a tem recebido muita atenção nos últimos anos devido ao seu potencial para estabelecer conexões entre resposta inflamatória e resistência à insulina: a via da IkK-NFkB (Fig. 7). Em células em cultura, o bloqueio da atividade desta via pode evitar o surgimento de resistência à insulina induzido pelo TNF-a. Em animais com obesidade induzida geneticamente ou por dieta, o bloqueio da atividade da IkKb através da administração de altas doses de salicilatos ou da mutação em um alelo da IkKb resulta em melhora da sensibilidade à insulina. A IkKb pode interferir na sinalização de insulina através de pelo menos duas vias: primeiro, ela pode fosforilar diretamente o IRS-1 em resíduos de serina; segundo, ela pode ativar indiretamente o NFkB, um fator de transcrição que, dentre outros alvos, pode estimular a produção de vários mediadores inflamatórios, incluindo o TNF-a e a IL-6. É interessante notar que, tanto IkKa quanto IkKb podem, in vitro, agir nos mesmos resíduos de serina que a JNK, o que levanta a possibilidade de existir um cross-talk entre essas duas vias na regulação da ação da insulina. A ativação destas quinases na obesidade, especialmente IkK e JNK, ressalta a sobreposição das vias metabólicas e inflamatórias: estas são as mesmas quinases que são ativadas na resposta imune inata pelo TLR (Toll-like receptor) em resposta aos LPS, peptidoglicanos, RNA de dupla fita e outros produtos microbianos.

Via da IkK-NFkB. A ativação do receptor de TNF-a leva à ativação e fosforilação da IkB quinase (IKK). IKK fosforila IkKa, a qual é degradada via proteossomo. O fator nuclear (NF)kB livre transloca-se para o núcleo celular e ativa a expressão gênica

Fig. 07 - Clique na imagem para ampliar

iNOS (inducible nitric oxide synthetase) e SOCS (suppressors of cytokine signaling), cujos genes são alvos das vias da JNK e IkK, também estão implicados na resistência à insulina promovida pelo TNF-a. A expressão da iNOS é estimulada pelo TNF-a e está elevada na obesidade; camundongos com mutações no gene da iNOS desenvolvem menos resistência à insulina associada à obesidade do que seus controles com gene intacto da iNOS. A expressão de várias isoformas de SOCS, especialmente da SOCS-3, aumenta na presença de TNF-a e na obesidade e pode induzir resistência à insulina, provavelmente através do aumento da degradação do IRS-1 mediada por proteossomos. Recentemente, um novo mecanismo de resistência à insulina foi descrito: a S-nitrosação do receptor de insulina, do IRS-1 e da Akt. O óxido nítrico produzido pela iNOS pode induzir resistência à insulina no músculo através de um mecanismo que envolve a S-nitrosação do IR, IRS-1 e Akt in vitro e também em modelos animais de obesidade e resistência à insulina.

Recentemente descobriu-se que vias de sinalização inflamatórias podem também ser ativadas pelo stress metabólico originado do interior da célula ou de moléculas sinalizadoras extracelulares. Foi demonstrado que a obesidade sobrecarrega a capacidade funcional do retículo endoplasmático (RE) e que este “stress do RE” leva à ativação de vias de sinalização inflamatórias e assim agrava a resistência à insulina. Além disso, o aumento do metabolismo de glicose pode levar a um aumento na produção mitocondrial de espécies reativas de oxigênio (EROs). O aumento da produção de EROs na obesidade leva à maior ativação de vias inflamatórias.

Modelo de suporposição de vias de sinalização inflamatórias e metabólicas nos adipócitos e macrófagos. As vias inflamatórias podem ser iniciadas por mediadores extracelulares, como citocinas e lipídios, pelo stress do retículo endoplasmático (RE) ou pela produção excessiva de espécies reativas de oxigênio (EROs). Sinais provenientes destes mediadores convergem para vias de sinalização inflamatórias, incluindo as quinases IKK e JNK. Estas vias levam à produção de outros mediadores inflamatórios através do controle da transcrição gênica bem como à inibição direta da sinalização de insulina. Opondo-se às vias inflamatórias estão fatores de transcrição das famílias do PPAR e LXR, os quais promovem o transporte de nutrientes e o metabolismo e antagonizam a atividade inflamatória. Uma regulação mais inicial pode ser dada pelas FABPs (proteínas ligadoras de ácidos graxos), as quais podem seqüestrar ligantes destes fatores de transcrição, promovendo um ambiente com resposta inflamatória mais exacerbada (a ausência de FABPs é antiinflamatória). A célula deve manter o equilíbrio entre as vias metabólicas e as inflamatórias; em condições de hiperalimentação o equilíbrio se torna instável, pois os processos de metabolização de nutrientes, como o metabolismo oxidativo mitocondrial e o aumento da síntese protéica do RE podem, per se, induzir inflamação

Fig. 08 - Clique na imagem para ampliar

Devido ao uso crescente de agonistas do PPARg (as tiazolidinedionas) como drogas sensibilizadoras da ação da insulina, tem-se avaliado melhor a capacidade que o TNF-a e o PPARg têm de se antagonizar mutuamente. As tiazolidinedionas podem suprimir a resposta inflamatória em geral e inibir a atividade transcripcional do promotor do TNF-a em particular, bem como antagonizar os efeitos da administração exógena de TNF-a in vivo e in vitro, independentemente do efeito adipogênico do PPARg 162. O acúmulo de colesterol nos macrófagos promove aterosclerose, e o acúmulo de lipídios no músculo e fígado promove resistência à insulina; no entanto, como foi observado em camundongos tratados com TZD e em camundongos que não expressam FABP, se os lipídios forem “forçados” a permanecer no tecido adiposo, a resistência à insulina presente na obesidade pode ser reduzida. Não está estabelecido ainda se, na obesidade, o aumento da resposta inflamatória em geral e o aumento da expressão do TNF-a em particular podem ser conseqüentes à redução da atividade do PPARg.

Na busca de alvos terapêuticos na via inflamatória para a resistência à insulina e diabetes, é bem possível que a modulação de mediadores individuais não seja uma estratégia efetiva pois outros componentes redundantes da via podem ser suficientes para continuar a propagação do sinal inflamatório inibidor da via metabólica. O bloqueio de citocinas inflamatórias individuais pode não proporcionar uma resposta tão ampla e robusta quanto, por exemplo, a inibição das quinases IkK e JNK, uma vez que estas últimas integram sinais acionados por diferentes citocinas. A via de stress do RE pode ser ainda mais central neste processo de integração, pois ela pode ativar tanto a JNK quanto a IkK; assim, a inibição do stress do RE através da adição de chaperones (proteínas responsáveis por auxiliar outras proteínas a adquirir sua conformação funcional) ou outros mecanismos poderia inibir estes dois braços da via inflamatória e restaurar a ação da insulina normal.

As respostas do organismo aos nutrientes e aos patógenos se sobrepõem e regulam umas às outras. A inflamação crônica da obesidade promove elevação dos lipídios plasmáticos e resistência à insulina, eventualmente resultando em esteatose hepática, aterosclerose e diabetes. A infecção tipicamente leva a uma resposta inflamatória mais acentuada e transitória, e a hiperlipidemia limitada auxilia na resolução da infecção. Em certas situações de infecção crônica, no entanto, pode ocorrer resistência à insulina, diabetes e aterosclerose

Fig. 09 - Clique na imagem para ampliar

Considerações evolucionárias

As relações entre a resposta imune e o controle metabólico são muito íntimas e suscitam muitas questões evolucionárias. Três conceitos fundamentais têm sido levantados. Primeiro, as estruturas que controlam funções metabólicas e imunológicas evoluíram de ancestrais comuns. O melhor exemplo é o corpo adiposo da Drosophila, o qual contém os homólogos do fígado, do sistema hematopoiético, de componentes do sistema imunológico e do tecido adiposo de mamíferos. Assim, pode-se especular que vias comuns possam regular tanto as funções metabólicas quanto as imunológicas através das mesmas moléculas. Segundo, a regulação coordenada do metabolismo e das funções imunológicas parece ser vantajosa, uma vez que o organismo precisa organizar e redistribuir seus recursos energéticos durante a instalação e o curso de respostas inflamatórias. Finalmente, a sobrevivência de espécies isoladas depende muito da habilidade de utilizar fontes de energia de forma eficaz para combater a fome e as infecções. Do ponto de vista evolutivo, a atual pandemia de obesidade poderia ser entendida como resultado da seleção de indivíduos que foram capazes de resistir, ao mesmo tempo, à escassez de alimentos e às infecções. No mundo atual, no entanto, isso favoreceria o desenvolvimento de respostas imunológicas intensas frente ao stress metabólico da obesidade/hiperalimentação, agravando e perpetuando a resistência à insulina através do eixo inflamatório-metabólico em humanos.

 

Falência da Célula Beta

Secretar insulina adequadamente para as demandas metabólicas, por disfunção secretória adquirida e (ou) diminuição da massa de células β . A disfunção secretória bem caracterizada é uma redução relativa da fase rápida de secreção de insulina, demonstrada durante o teste oral ou endovenoso de tolerância à glicose, ou mesmo após refeições mistas. Esta menor secreção pode ser conseqüência de alterações funcionais genéticas e (ou) adquiridas da célula β, mas a hipótese mais provável, para a maior parte dos casos de DM2, é que esta disfunção secretória seja conseqüência de redução da massa dessas células.

A massa de células β no adulto é plástica, e um ajuste nos mecanismos de crescimento e sobrevivência destas células é o que mantém o balanço entre oferta de insulina e demanda metabólica. Indivíduos obesos que não desenvolvem diabetes apresentam um aumento de massa das células beta, que parece compensar a maior necessidade metabólica da resistência à insulina associada à obesidade. Esta adaptação da célula beta não ocorre de maneira apropriada em obesos que desenvolvem diabetes. Nesse sentido, a maioria dos pacientes com DM2, magros ou obesos, apresenta uma redução de massa de células beta. Assim, o diabetes tipo 2 pode ser visto como uma doença de deficiência relativa de insulina.

Considerando-se o papel central da massa de células beta, determinando se um indivíduo irá progredir ou não para DM2, é necessário destacar, inicialmente, os mecanismos que controlam o crescimento e a sobrevivência da célula beta e, a seguir, as implicações na patogênese do DM2.

 

Mecanismos celulares que controlam a massa de células beta e implicações na patogênese do DM2

A massa de células beta é regulada por pelo menos quatro mecanismos independentes: replicação de células beta; tamanho da célula beta; neogênese da célula beta e apoptose. A contribuição desses mecanismos é variável e pode mudar em diferentes fases da vida ou frente a adaptações metabólicas. No período neonatal a replicação e neogênese dessas células estão aumentadas e apoptose é baixa . Há uma associação entre baixo peso ao nascer e desenvolvimento de DM2, e parece que esta neogênese e replicação, logo após o nascimento são críticas para a manutenção da massa de células beta na vida adulta. Na infância e adolescência a replicação, a neogênese e a apoptose diminuem de maneira marcante. No adulto o tamanho das células beta se mantém relativamente constantes, com baixa taxa de apoptose, compensada por replicação. Nos idosos a massa de células b pode se reduzir, porque a apoptose supera a capacidade de replicação. Isto pode explicar por que os idosos estão mais propensos a apresentar DM2.

Quando ocorre uma sobrecarga metabólica, como na obesidade, a massa de células beta aumenta, incrementando a replicação, a neogênese, e também ocorre hipertrofia.

Aproximadamente 1/3 dos obesos desenvolve diabetes, provavelmente em decorrência da predisposição genética que envolve esse controle da massa de células beta.

No DM2 há um maior grau de apoptose de células beta, provavelmente decorrente dos seguintes fatores: hiperglicemia, lipotoxicidade, stress oxidativo, stress do retículo endoplasmático e algumas citocinas. É importante destacar neste ponto, o papel do IRS-2 na sobrevivência da célula beta. O aumento de expressão do IRS-2 induz replicação, neogênese e maior sobrevida de células beta, e a diminuição de expressão desse substrato causa apoptose espontânea destas células. Assim, o IRS-2 é fundamental para a manutenção da massa de células b, promovendo a sobrevivência destas células, e mecanismos que induzem menor expressão ou maior degradação deste substrato do receptor de insulina podem contribuir para a instalação do DM2.

A hiperglicemia crônica, a geração de espécies reativas de oxigênio, o aumento dos níveis de ácidos graxos ativam serinas-quinases, como a PKC e a JNK, que podem induzir a fosforilação do IRS-2 em serina. Quando o IRS-2 está fosforilado em serina ele é mais facilmente degradado, deixando desprotegida a célula b. Algumas citocinas podem ter papel fundamental na apoptose de células b, e conseqüentemente na patogênese do DM2. Além da elevação dos níveis circulantes de TNFa e IL-6 em obesos, a hiperglicemia aumenta a expressão de IL-1 dentro das ilhotas. Estas citocinas, ativando serinas quinases como IKKb e JNK também vão induzir fosforilação em serina do IRS-2, com conseqüente degradação deste substrato, induzindo apoptose de células beta.

Mecanismos que desencadeiam a degradação e apoptose do IRS-2 nas células b pancreáticas. Vários fatores podem reduzir os níveis celulares de IRS-2, promovendo aumento da apoptose de células b e contribuindo para a perda da massa destas células no pâncreas de diabéticos tipo 2. ATP, adenosina trifosfato; mTOR, mammaliam Target of Rapamycin; FA-CoA, fatty acyl-CoA; nPKC, novas classes de isoformas de PKC; EROs, espécies reativas de oxigênio; TRAF, fator associado ao receptor de TNF

Fig. 10 - Clique na imagem para ampliar

Conclusões

O DM2 apresenta resistência à ação da insulina no tecido muscular, no adiposo e no fígado, acompanhado de menor secreção de insulina. Nos últimos anos, ficou evidente que inúmeros fatores podem regular negativamente a ação da insulina, agindo tanto no receptor de insulina quanto em moléculas pós-receptor. Assim, diversos fatores produzidos por adipócitos podem promover a ativação de serinas-quinases, especialmente a IKK e a JNK, capazes de fosforilar moléculas da via em resíduos de serina, como IRS-1 e -2, inibindo a sinalização da insulina. Estas alterações podem explicar a resistência à insulina no fígado, músculo e adiposo, e na célula b esta regulação acelera a apoptose, reduzindo a massa dessas células. Assim, é possível que mecanismos comuns possam explicar a resistência e a alteração de secreção de insulina, processos essenciais na patogênese do DM2. Naturalmente, polimorfismos genéticos podem facilitar o efeito da obesidade, da inatividade física e do envelhecimento nessa regulação, justificando a base poligênica e ambiental do DM2. Apesar da necessidade de se definir muitas outras etapas desta via, todas estas descobertas abrem novas perspectivas para o tratamento e prevenção da síndrome de resistência à insulina e do diabetes tipo 2.

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